Capítulo
I: Como o livro chegou no Brasil - Capítulo
II: Euclides e a história de um best-seller - Capítulo
III: Breve história da maior livraria do país
- Capítulo
IV: De quem é a culpa pela falta de livros? Capítulo
V: Quem foi Monteiro Lobato? - Capítulo
VI: Os Modernistas: livros, não; revistas, sim Capítulo
VII: A "Casa" José Olympio - Capítulo
VIII: Getúlio trouxe livros? Capítulo
IX: A grande Biblioteca de São Paulo - Capítulo
X: O sonho de uma Enciclopédia - Capítulo
XI: A mão pesada da censura aos livros - Capítulo
XII: A Editora Globo - Capítulo
XIII: A década de 50, os americanos e os brasileiros
- Capítulo
XIV: Descobrindo a estética - Capítulo
XV: Livros, café, livrarias - Capítulo
XVI: Um meio termo para os livros e os jornais
CAPÍTULO I
Tudo começou no
Rio de Janeiro, sede da Corte de D. João VI
A história do livro no Brasil tem seu começo quando,
em 1808, a corte portuguesa se transfere para o Brasil.
Com D. João VI vêm, além de seu séquito,
o primeiro prelo, de madeira e fabricação inglesa
e a Biblioteca Real. D. João ordenou a instalação
da Imprensa Régia. Contudo, essa imprensa funcionava sob
a poderosa censura do imperador. A imprensa brasileira de então
não era sinônimo de liberdade ou de manifestação
da opinião pública. Era proibida a impressão
fora das oficinas da corte e publicava-se apenas o que era autorizado:
o que não ofendia o Estado, a religião, os costumes.
A partir da Imprensa Régia foi publicado o primeiro jornal
brasileiro, a Gazeta do Rio de Janeiro e também
o primeiro livro, Marília de Dirceu, de Tomás
Antonio Gonzaga. Depois de revogada - em 1821- a proibição
de imprimir, multiplicaram-se os jornais, folhetos, revistas.
Surgiu a primeira revista, As variedades ou ensaios de literatura.
Os irmãos Laemmert e B. L. Garnier
O Brasil desta época vivia sob forte influência
cultural da França. Nesse contexto dois nomes se destacam
e têm extrema importância para a cultura livresca
do país: Laemmert e Garnier. Eram duas casas
editoras que importavam muitos livros franceses para uma elite
rica e culta. Enquanto essa pequena parcela gozava da mais refinada
cultura, o restante dos brasileiros, cerca de 84% da população,
não sabia ler.
Eduard Laemmert e seu irmão Heinrich, além de fundar
a Livraria Universal, logo passaram a editar livros e inauguraram
a Typographia Universal. Os negócios com livros
prosperavam. Almanaques, clássicos da literatura, dicionários,
coleções, obras técnicas e acadêmicas;
os irmãos Laemmert foram responsáveis pelas primeiras
publicações da qualidade do Brasil.
Ao lado dos irmãos Laemmert, dividia o mecado de livros
a livraria Garnier, de seu fundador e editor, Baptiste
Louis Garnier. Garnier editou clássicos estrangeiros
e foi um dos primeiros a editar os autores brasileiros. Foi responsável
também pelo lançamento de romancistas brasileiros,
como José Veríssimo, Olavo Bilac, Artur Azevedo,
Bernardo Guimarães, Silvio Romero, João do Rio,
Joaquim Nabuco.
Baptiste Louis adoeceu e seu irmão, Hippolyte, assumiu
a editora. Personalidade reservada e pouco ousado, Hippolyte não
arriscava seu nome em autores desconhecidos. Graça Aranha,
autor de Canaã, foi o primeiro grande autor desconhecido
no qual ele apostou. Foi o maior sucesso editorial do começo
do século 20 (1902).
Sua política de compra definitiva de direitos autorais
beneficiou a empresa, mas prejudicou autores que estavam começando
sua vida editorial. Entre eles, Machado de Assis, de quem
foi o primeiro e principal editor e de quem comprou, a preços
ínfimos, os direitos autorais de todas suas obras.
Enquanto Laemmert editava publicações populares
e manuais, em parque tipográfico situado à rua dos
Inválidos, Garnier sofria uma certa discriminação
por enviar para Paris as obras que fosse editar. Além de
sua política de compra definitiva dos direitos, Garnier,
era, também por isso, visto com um editor às avessas:
não incentivava a produção local de livros.
Em 1934, Garnier e Laemmert não resistiram ao conturbado
período político-econômico do país
e à Grande Depressão, tendo encerrado suas atividades
neste período.
Em São Paulo...
Até o fim do século 19 a atividade editorial em
São Paulo girava em torno da Faculdade de Direito de
São Paulo, no Largo São Francisco. Em 1860,
o panorama começou a mudar quando a Garnier abriu uma filial
na cidade, com um antigo funcionário na direção
do estabelecimento, Anatole Louis Garraux. Além de livros
a Casa Garraux passou a vender também artigos de
papelaria e ficou famosa na cidade por introduzir o uso do envelope,
caixas registradoras e máquinas de calcular - tudo importado.
Frequentada não só por estudantes mas por grandes
cafeicultores da elite paulistana, se tornou um ponto de encontro
e uma referência na vida cultural da cidade. Foi na Garraux
que José Olympio deu início
à sua atividade como livreiro. Depois de passar três
anos como livreiro, J. Olympio, com sua influência entre
os intelectuais, passou a conquistá-los e a editar suas
obras. Foi um pioneiro na época, pois além de suas
boas relações, pagava adiantado os direitos autorais
e lançava novos autores, que se tornaram os maiores nomes
da época. J. Olympio soube explorar a precariedade da então
ingrata profissão de escritor que, durante décadas
careceu até de legislação de direitos autorais.
O profissionalismo de Olympio fez a Garraux fechar as portas.
Foi nessa época também que surgiu em São
Paulo a Grande Livraria Paulista, primeiro nome da Livraria
Teixeira, dos portugueses Antonio Maria e José Joaquim.
Nela trabalhou o jovem José Vieira Pontes, que criou em
torno da Teixeira uma clientela culta e famosa. Até o Imperador
Pedro II fez uma visita à livraria. Ficou conhecida também
por ter iniciado as tardes de autógrafo e a primeira edição
de A Carne, de Júlio Ribeiro. A Teixeira é,
até hoje, a livraria mais antiga de São Paulo.
CAPÍTULO II
Um best-seller em descrédito
Em meados de 1897, o republicano Euclides da Cunha, então
articulista do jornal "O Estado de S. Paulo", escrevia
contra a guerra dos Canudos, a qual considerava uma mera revolta
insuflada pelos monarquistas. A visão euclidiana do conflito
se transformou quando o autor viu de perto a guerra e passou a
se questionar sobre a causa defendida por um povo tão oprimido
e praticamente indefeso. Foi para responder a essa pergunta que
Euclides escreveu "Os sertões". O panorama descrito
pelo autor desvendou à rica e fechada elite do eixo Rio-São
Paulo um mundo até então desconhecido. O clássico
de Euclides foi escrito em três partes (a terra, o homem,
a luta); segundo o estudioso Antonio Cândido, o livro inaugura
uma fase importante da história da literatura brasileira:
aquela em que os escritores procuram um respaldo científico
para suas análises da sociedade.
Esse cientificismo, aliado ao grande volume de páginas,
assustou a editora Laemmert, que se recusou a publicar o livro,
alegando que seria um fracasso editorial. Euclides, em 1902, acabou,
por isso, tendo que financiar sua própria edição,
desembolsando o dobro do que ganhava por mês num projeto
que consumiu três anos e meio de trabalho. Tantos eram os
erros, as correções a serem feitas, que Euclides,
sozinho, chegava a duvidar da viabilidade do livro.
Contrariando sua própria visão pessimista e também
o descrédito da editora, o livro foi um sucesso e se esgotou
em poucas semanas, tendo vendido 6 mil exemplares no prazo de
um ano e meio. Sucesso de público e de crítica,
"Os sertões" se tornou um clássico e consagrou
Euclides da Cunha, como um dos maiores escritores de todos os
tempos.
Em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos, Euclides foi para o subúrbio
carioca de Piedade disposto a enfrentar Dilermando de Assis, o
cadete que conquistara sua mulher, Ana. Morreu em meio à
troca de tiros, no jardim da casa da Estrada Real de Sta. Cruz.
Biografia
de Euclides.
O brilhante escritor é autor de "Contrastes e confrontos",
"Peru versus Bolívia", "À margem
da história", "Canudos, diário de uma
expedição". Ver
e-livros de E. da Cunha.
CAPÍTULO III
Saraiva - a maior Livraria
do Brasil
Merece um capítulo especial a história do surgimento
da Livraria Saraiva no cenário do mercado editorial
brasileiro.
Em 1914, Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva abandonou a
direção do jornal da colônia portuguesa no
Rio e decidiu se transferir para São Paulo. Comprou uma
biblioteca de livros jurídicos e montou um pequeno sebo
no Largo do Ouvidor. Era fundada, então, a famosa Livraria
Saraiva, cujo primeiro nome foi Livraria Acadêmica.
Nascido em Portugal, ex-estudante de Direito, apaixonado por livros,
por jurisprudência. Bom papo, interessado por tudo, logo
fez amizades com professores e alunos do curso de Direito. Devido
a sua influência entre estes ganhou o título de conselheiro.
Em 1917, três anos depois de fundada a Livraria Acadêmica,
Saraiva deu seu primeiro passo para abrir a divisão editorial
da Saraiva. Editou o Casamento civil, de Aniceto Correa.
Foi o primeiro livro de uma série de títulos que
durante trinta anos contemplaram quase exclusivamente a área
jurídica.
A mudança de orientação veio com a morte
do fundador, em 1944. A Saraiva, sob o comando dos filhos de Joaquim
Inácio, passou também a operar na produção
de livros, isto é, montou uma gráfica. Junto com
a gráfica veio também a expansão do número
de livrarias no Brasil e diversificação da linha
editorial. Em 48 lançaram a Coleção Saraiva,
famosa por editar clássicos da literatura brasileira e
mundial: Machado de Assis, José de Alencar, Henry James
e Edgar Allan Poe. A inovação chegou para o consumidor
em forma de barateamento dos livros, capa coloridas e atraentes,
que chamavam atenção do público. Vendidos
num sistema inédito de assinaturas, os exemplares tiveram
tiragens recordes. Por exemplo: O amanuense Belmiro, de
Ciro dos Anjos, saiu com 40 mil exemplares. Um número elevado,
mesmo para os nossos dias.
Quando a Coleção foi encerrada, na década
de 60, contava com 287 títulos em seu catálogo e
24 anos de existência. O outro segmento no qual a Editora
Saraiva despontou foi o de livros didáticos, especialmente
na área jurídica, com o lançamento, em 77,
da Enciclopédia Saraiva do Direito. Iniciativas
sempre ousadas têm garantido à Saraiva a liderança
do mercado de livros jurídicos, onde chega a a participar
com 75% do mercado. Ver
e-livros de Direito.
CAPÍTULO IV
De quem é a culpa pela falta
de livros?
Durante muito séculos, até meados de 1870, o Brasil
não contava com uma organização em torno
da atividade da escrita: não havia política nem
legislação de direitos autorais; tampouco os escritores
eram bem remunerados. Mas se assistimos ao monopólio legal
do governo e um certo abuso das casas editoras, é certo
que os escritores também não se faziam organizar
e reivindicar seus direitos.
Em 15 de maio de 1890, o jornal Correio do Povo noticia
a fundação da SHL, ou Sociedade dos Homens de
Letras. Machado de Assis, José do Patrocínio,
Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, Artur Azevedo. Num esforço
para se organizar como classe, a SHL é o embrião
da ABL, ou Academia Brasileira de Letras, criada em 1896,
graças à liderança de Machado. Contudo, a
perda de foco, de objetivos com relação à
função da Academia, gera um vazio na questão
da profissionalização dos escritores da época,
trazendo pouco ou nenhum progresso.
Vimos que a tipografia e a imprensa só chegaram por essas
bandas em 1808 e que foi, até 1821, monopólio régio
- ou seja, tudo era censurado. Foi isso, aliado à alta
de iniciativa dos escritores, que atrasou a disseminação
e a cultura do livro entre os brasileiros. A implementação
tardia de uma universidade e política educacional também
são fortes ingredientes. Se em 1817 há alguns parcos
registros de comércio de livros, isso se dá com
a intermediação do Estado que vigiava tudo. Na década
de 70, os documentos que tratam da compra dos direitos pelas editoras
revelam que o editor sempre dava as cartas, impunha as tiragens,
a baixa remuneração e a inexistência de porcentagens
sobre as vendas. Pode-se acrescentar que a falta de profissionalismo
se estendia a todas as etapas da produção do livro:
desde a gráfica, distribuição, editoras.
Todos inseridos numa estrutura pré-capitalista com alicerces
de economia escravocrata e pouco afeita à prática
da leitura.
CAPÍTULO V
Monteiro Lobato chegou e encantou...
Figura inesquecível - como empresário, escritor,
criador, inovador, pioneiro. Monteiro Lobato habita a memória
de todos nós com tanta força que até chegamos
a crer, muitas vezes, que se trata de uma lenda, de um personagem.
Será que ele existiu mesmo? Será que criou todas
aquelas estórinhas lindas e, de uma hora para outra, preencheu
um cenário com personagens divertidas, diferentes? Lobato
viveu numa época de modernização da economia
e ele próprio foi um dos principais protagonistas dessas
mudanças, trazendo inovação, criatividade.
Assistia-se ao crescimento do movimento das artes plásticas
e da literatura, graças ao Movimento Modernista. Embora
tenham revolucionado a literatura brasileira, os modernistas não
tiveram, quanto à edição de seus livros,
muito mais sorte que seus antecessores. Com exceção
de Lobato, as tiragens continuavam baixas, oscilando entre 300
e 1000 exemplares.
O mercado paulista sofreu, apesar de ter se transformado no principal
do país, uma retração em 1926, o período
pós-guerra. Os livros deixaram de se beneficiar da isenção
de taxas de importação de papel, mantidas apenas
para jornais e revistas. A indústria nacional não
tinha infra-estrutura para fabricá-lo. Lobato sonhava então
com um povo leitor e culto. Além de escritor, foi responsável
pela abertura de uma das mais dinâmicas e modernas editoras
do país. Mas devido à precariedade do setor e a
produção em baixa escala, seu sonho minguou. De
suas cinzas, além de outras gráficas, surgiu a Companhia
Editora Nacional, uma das mais sólidas e exemplares editoras
da história do país.
A História do Livro no Brasil pode ser dividida em "antes
e depois de Lobato". Sucesso de público, o autor ficou
logo conhecido e fez amizades entre políticos e empresários,
o que proporcionou progresso em suas empreitadas litero-comerciais.
Lobato avançou e nos fez avançar, progrediu e trouxe
o progresso. Teve altos e baixos, mas construiu em torno de si
um mito, não só pelo que fez - mas pelo que continua
fazendo. Biografia
de Lobato.
CAPÍTULO VI
Os Modernistas, os livros e as revistas
A precária infra-estrutura da indústria editorial
brasileira, ainda à época de Lobato, foi surpreendida
pela capacidade que o autor do "Sítio" demonstrou
ao investir pesadamente no futuro do nosso mercado editorial.
Lobato se endividou até onde pôde para fazer seu
sonho virar realidade. Se não fosse ele, a história
do livro no Brasil seria outra. Comprou maquinário caro
e moderno para equipar a gráfica Moteiro Lobato e Cia.,
e contratou profissionais qualificados, como Natal Daiuto, que
trabalhava na Imprensa Oficial do Estado. Dívidas que excederam
sua capacidade levaram nosso autor à falência. Seu
sócio, Octalles Marcondes Ferreira, e Daiuto, foram incorporados
pela Cia. Editora Nacional.
Em meio à perplexidade que estavam vivendo, Octalles e
Daiuto se juntaram para arrematar o que sobrara da gráfica
- e foi então que surgiu a São Paulo Editora.
Com a implantação da impressão off-set e
da brochura colada, a gráfica pôde então atender
em grande escala, a todo país, tornado-se uma das maiores
impressoras de livros nas décadas de 40 e 60.
A produção intelectual do país não
era acompanhada pela produção industrial das editoras
e, em tempos de Modernismo, isso queria dizer que os autores não
interessavam muito às editoras, pois não tinham
vendas expressivas. O destino destes era escrever para revistas
especializadas, que atendiam a um púbico mais elitista
e culto. Data desta época o surgimento da Revista Klaxon,
para a qual ecreveram nomes como: Anita Malfatti, Sérgio
Milliet, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral. A revista
era financiada pelos próprios autores e lutou para permanecer
circulando. Mas a semente lançada pelos modernistas repercutiu
em todo país: em Minas Gerais, onde Drummond dirigiu A
Revista; a carioca Estética, de Sérigo
Buarque de Holanda; na Bahia, Arco e Flexa; e em Porto
Alegre, Madrugada. A situação dos modernistas
só melhoraria na década de 30, com a Editora
José Olympio e sua famosa "Casa", cuja principal
filosofia era lançar autores nacionais. Ver
e-livros grátis de literatura brasileira.
CAPÍTULO VII
José Olympio - um pioneiro
do mercado editorial brasileiro
Natural de Batatais, José Olympio, de origem humilde,
chegou em São Paulo em 1918 para fazer faculdade de Direito
e se empregou num armazém de secos e molhados. Como tendo
o armazém falido, acabou por conseguir um emprego na Casa
Garraux, ponto de encontro de intelectuais e políticos.
Logo despontou como excelente funcionário e, de balconista,
tornou-se gerente. Foi nesta época que fez muitos amigos
influentes. Em 1931 partiu para o negócio de livros por
sua própria conta. Comprou, com ajuda de amigos, 10 mil
volumes da biblioteca de Alfredo Pujol, e lançou, já
com a marca Editora José Oympio, seu primeiro título:
Conhece-te a ti pela psicanálise, de Joseph Ralph.
Tamanho foi o sucesso que o livro ficou por mais vinte anos no
catálogo. Já aí demonstrava seu "faro"
de editor.
A instabilidade político-social, propiciada pela Revolução
de 1932, fez a editora interromper momentaneamente suas atividades.
Insatisfeito com a estagnação do mercado editorial
de São Paulo transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi então
que um outro sucesso editorial, Os párias, de Humberto
de Campos, consolidou sua posição ainda mais.
J. Olympio inaugurou uma política inédita no mercado
editorial de então: o pagamento adiantado dos direitos
autorais. Com isso ganhava simpatia dos autores e fez da sua Casa
um ponto de encontro de intelectuais, professores, jornalistas,
que se tornaram seus habitués.
Editou sucessos como Raízes do Brasil, de Sérigo
Buarque de Holanda, e Vidas Secas de Graciliano Ramos,
além de Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e Guimarães
Rosa. Foi, por isso, responsável direto pelo surgimento
e popularização desses grandes nomes da cultura
brasileira.
Os tempos começaram a mudar para o pioneiro J. Olympio
e sua editora; a Segunda Guerra fez sua linha editorial orientar-se
para as traduções de clássicos da literatura
mundial, como Balzac, Dostoievski, Jack London, Tolstoi.
Outro fato, o surgimento da Livraria Editora Martins, cujas
convicções políticas antigetulistas atrairam
rapidamente os intelectuais e conquistaram o público leitor,
causou um certo vazio na Casa. Assim foi, que de 1960 em diante,
a velha Casa se voltou para o mercado de livros didáticos
e logo teve filiais em sete capitais. Em 1962 já figurava
entre as quinhentas maiores empresas do país, sendo o primeiro
editor a ter ações na bolsa.
Originalidade na política de direitos autoriais, lançamento
e popularização dos grandes nomes da literatura,
preocupação com a estética, inovação
no método da crítica nas "orelhas" dos
livros e adoção do método domiciliar de vendas.
José Olympio simboliza, por isso, um marco no mercado editorial
brasileiro.
CAPÍTULO VIII
Getúlio trouxe livros?
Além de instituir o salário mínimo, os sindicatos,
a legislação trabalhista, Getúlio Vargas,
o "pai dos pobres" e o ditador demagogo por excelência,
também negociou com industriais e conservadores. A política
educacional de Getúlio representou uma ampla reforma do
ensino que acabou por incentiver a indústria do livro -
imediatamente consolidou o mercado didático e a médio
prazo ampliou o público leitor.
A brusca queda nas exportações de café levou
a uma desvalorização do nosso dinheiro, o mil-réis.
A taxa de câmbio passou então a desfavorecer as importações
- inclusive a de livros. O resultado é que o livro produzido
no Brasil se tona mais barato do que o importado, fomentando a
publicação de traduções e o consequente
declínio do livro francês. A situação
melhora ainda mais com o advento da Segunda Grande Guerra e o
interesse do público pela leitura. São Paulo já
era o maior centro industrial da América Latina e um dos
maiores parques gráficos do Ocidente. Nesta época,
70% da produção editorial estava no Rio, mas grande
parte dela era impressa em São Paulo. O número de
editoras em atividade no país cresceu quase 50% entre os
anos de 1936 e 1944. Os títulos e exemplares publicados
quadruplicaram entre 1930 1950. No meio do século o país
produzia 4 mil títulos e cerca de 20 milhões de
exemplares.
A proteção do ditador não era gratuita:
sentindo que não mais resistiria aos apelos para que realizasse
as eleições, Vargas decretou o Estado Novo, regime
de exceção que ampliava seus poderes. Toda atividade
cultural passou a ser controlada pelo DIP, Departamento de Imprensa.
A censura estava presente no rádio, imprensa, música,
ensino - nos livros.
Apesar de seu aspecto autoritário, o longo governo de
Vargas foi o período em que o nosso símbolos mais
apareceram e cresceram. O rádio, o samba, o carnaval e
o futebol se tornaram populares e ganharam projeção,
tornando-se ícones, símbolos permanentes na nossa
memória coletiva e moldando nosso mais profundo nacionalismo.
O ditador Vargas, espertamente, se deixou rodear pelos intelectuais
mais respeitados da época: Oscar Niemeyer, Lúcio
Costa, Drummond, Mário de Andrade, Portinari.
Sem dúvida, todos esses fatores culturais impulsionaram
a cultura livresca e, apesar da política, foi nessa atmosfera
que os modernistas e intelectuais trabalharam e desenvolveram
a mais fina cultura brasileira. A "Casa" José
Olympio os acolheu e o sonho de Lobato de disseminar o livro parecia
se tornar realidade.
CAPÍTULO IX
Como surgiu a Biblioteca Pública
Municipal de São Paulo
O ritmo intenso de crescimento da cidade São
Paulo, em 1926, trazia euforia e esperança para intelectuais
e empresários. Todos desejosos de ter uma biblioteca à
altura da daquela cidade progressista. Intelectual de formação
clássica, o advogado Eurico Góes, pirmeiro diretor,
concebeu a biblioteca em torno do "espírito brilhante
da Renascença". O gosto pela antiguidade estava por
toda parte: Palas Atena, ou Minerva, pairava sobre o frontispício
do prédio original, na rua 7 de Abril. Até na Sala
de Conferências havia o selo de Salomão e símbolos
caldeus e egípcios.
A modernidade, a tecnologia, faziam parte da Biblioteca:
projetor de cinema, estufa para desinfecção de obras,
oficina de encadernação, gabinete para ampliação
fotográfica, além de salas confortáveis e
refrigeradas e um ambiente moderno e luxuoso na Sala de Leitura.
A influência francesa era grande, mas o público procurava
mesmo a literatura brasileira: Urupês, de Lobato;
O cortiço, de Aluísio Azevedo, Os Maias,
de Eça de Queirós.
A reforma do ensino básico aumentou o número
de leitores potenciais e, logo, o diretor já lutava por
um novo prédio, ainda maior e mais moderno. Este projeto
ganho força em 1934, quando o governador Armando Salles
de Oliveira e o prefeito Fábio Prado reuniram uma equipe
de intelectuais para implementar o desenvolvimento cultural, chefiada
por Mário de Andrade, que era diretor do Depto. da Cultura
da Prefeitura. A prefeitura comprou o terreno que fica na esquina
da Avendia São Luís com a rua da Consolação
e iniciou a construção, que levou 3 anos, sob a
ditadura Vargas. Foram 150 mil obras catalogadas. A Biblioteca
foi modernizada por Rubens Borba de Moraes, que assumiu em 1936,
mas indispôs-se com a ditadura, e foi substituído
por Sérgio Milliet, que resumiu a filosofia da casa: "Não
se atemorizem os tímidos diante da magnificência
do mármore: a casa é de todos". Rebatizada
em 1960 com o nome de "Biblioteca Mário de Andrade",
ela é hoje a segunda maior da América Latina, e
teve mais de 2,5 milhões de consulentes em 1993.
CAPÍTULO X
O Instituto Nacional do Livro e a Enciclopédia
Brasileira
Independente de suas práticas políticas,
é inegável a importância de Getúlio
Vargas para a consolidação de um cultura livresca
no país. Um dos sonhos do ditador, que não escondia
suas vaidades intelectuais, era publicar uma Enciclopédia
Brasileira, nos moldes da italiana Triccani, concluída
à época de outro ditador, Benito Mussolini. Para
executar esse projeto baixou um decreto-lei em 21 de dezembro
de 1937. Foi então que surgiu o Instituto Nacional do
Livro.
O poeta gaúcho, Augusto Meyer, foi nomeado
para dirigi-lo. O sonho de Vargas, contudo, se deparou com a crônica
problemática da falta de verba. Passaram-se 20 anos e só
em 1956 o número um da Revista do Livro publicaria
o plano de trabalho da Enciclopédia.
O projeto da Enciclopédia, obedecendo
ao modelo da famosa Enciclopédia
Britânica, deveria ter 250 mil verbetes e 6 volumes.
Depois de lançada, a Enciclopédia não fez
o sucesso previsto, mas o INL afirmou sua importância e
prosseguiu com três objetivos básicos: abastecer
as bibliotecas, reeditar obras raras e fundamentais, estimular
a publicação de outras. Contudo, tornou-se ambígua
a sua função: desempenhou um papel de estimular
a cultura e a reprodução de livros; mas ao INL também
foi designada a função de vigiar a cultura - e nisso
inseria-se a censura aos livros. Sem ter tomado qualquer medida
prática para censurar livros, o INL viu essa atribuição
ser tranferida para o DIP, o temido Departamento de Imprensa,
criado exclusivamente para exercê-la.
O INL firmava-se como um órgão voltado
para o livro, com o intuito de radiografar e acompanhar a evolução
deste mercado no Brasil. Para isso surgiu a Bibliografia Brasileira,
que registrava toda a bibliografia nacional. Com o primeiro volume
publicado em 1938, o boletim durou até 1956, quando foi
substituido pela Revista do Livro.
Ao longo da década de 80 as atividades do
INL foram se restringindo: em 85 só conseguia atender a
23% das 3,000 bibliotecas com as quais mantinha convênio
para repasse de obras. Em 1990, o INL foi extinto e substituido
pelo Departamento Nacional do Livro, uma das diretorias da Fundação
da Biblioteca Nacional.
CAPÍTULO XI
Livros, perseguição
e censura
Através do DIP, o Departamento de Imprensa
e Propaganda, Getúlio manipulava seus inimigos e divulgava
uma boa imagem de seu governo. Duros golpes foram lançados
contra a indústria do livro: apesar de todo benefício
que Vargas trouxe, sua insegurança pessoal e ambição
política desmedida provocaram a reação contrária
a tudo o que tinha plantado até então.
Sob sua ditadura, editoras punidas; escritores,
como Jorge Amado, foram perseguidos e deixaram o país;
edições inteiras confiscadas e incineradas em praça
pública.
Essa hostilidade começou em 1931, com o
aparecimento do Departamento Oficial de Propaganda. Reorganizado
em 1934 como Depto. Nacional de Propaganda e Difusão Cultural
, o órgão foi substituido em dezembro de 1939 pelo
DIP, o todo-poderoso Depto. de Imprensa e Propaganda, que tinha
a indigesta missão de controlar a informação
e a produção cultural do país. A artilharia
estava voltada para a atividade editorial, sob o comando de Lourival
Fontes, que aos poucos foi minando as pequenas, mas importantes,
casas editoras brasileiras. Até os grandes "players"
do mercado como a José Olympio, apesar de sobreviver, amargaram
prejuízos. Gilberto Freyre, Raquel de Queiroz, Tomás
Santa Rosa, Jorge Amado, Cecília Meirelles, Graciliano
Ramos, foram presos e perseguidos.
Além da leitura adulta, o governo controlava
também a leitura infantil: criou a Comissão Nacional
do Livro Escolar, que escolhia os livros a serem adotados nas
escolas. Ao contrário, os títulos que tinham como
tema a figura de Getúlio e que o glorificavam eram fartamente
distribuidos. Rendida, a ABL, Academia Brasileira de Letras, chegou
ao disparate de integrar Vargas entre seus membros e fazer do
ditador um imortal.
Em janeiro de 1945 ventos novos pareciam soprar
e, no primeiro congresso da Associação Brasileria
de Escritores, o desejo comum de liberdade despontou. Albert Einstein
apoiou a carta de princípios então elaborada. Menos
de um mês depois, José Américo de Almeida,
em entrevista ao Correio da Manhã, marcava o fim da censura
à imprensa. E em outubro o Estado Novo começava
a se tornar velho.
CAPÍTULO XII
Desponta o Sul do país
como força intelectual
A Editora Globo começou como livraria, a
Livraria do Globo. Numa região emergente sócio-culturalmente,
a Livraria dirigida por Henrique Bertaso, filho do proprietário
José, logo se tornou uma referência, sendo frequentada
por Getúlio Vargas e pelo ex-boticário Érico
Veríssimo. Em 1929, por sugestão de Vargas, nasceu
a Revista do Globo, que mesclava colunismo social e crônicas.
Bertaso editava literatura de entretenimento: romances
sentimentais "para moças", policiais e de aventura.
Os primeiros compunham a "Coleção Verde",
que bateu a casa dos 36 títulos e uma média de dois
mil exemplares vendidos. Outra, a "Coleção
Amarela", foi a mais bem-sucedida da editora, com 160 títulos
e 5 a 10 mil exemplares vendidos de cada um.
Agatha Christie, Chesterton, Ellery Queen, Georges
Simenon, Edgar Wallace - faziam tanto sucesso quanto Karl May.
May escreveu a maioria dos romances de aventura que, de 1932 a
1942, compuseram a "Coleção Universidade".
Um pé em cada parte do mundo: Bertaso editava
clássicos, best-sellers mundiais - mas sem esquecer dos
gaúchos: Dyonelio Machado, Darcy Azambuja, Pedro Vergara.
Da literatura mundial, Bertaso esbarrava num problema: não
dominava o inglês. Foi então que decidiu chamar Érico
Veríssimo - que lia e traduzia textos para a Revista do
Globo. Juntos lançaram outras duas coleções
que dariam à Globo projeção em escala nacional:
a "Coleção Nobel" e a "Biblioteca
dos Séculos". O Brasil dispunha agora de autores que
brilhavam no cenário mundial: Virginia Woolf, Thomas Mann,
André Gide. Além de clássicos: Montaigne,
Rousseau, Proust, Nietzsche, Pirandello, Platão.
Com Veríssimo, a Editora diversificou seu
catálogo e passou a editar livros técnicos, infantis
e enciclopédias, como a Enciclopédia Brasileira
Globo. Com a saída do autor, entretanto, a Editora ficou
abalada. Externamente, o controle do governo sobre as remessas
ao exterior, inibiram as traduções que consagraram
a Casa. Somaram-se a isso outros problemas financeiros e os Bertaso
abriram mão do controle acionário da empresa: em
1986 ela passou a pertencer às Organizações
Globo.
CAPÍTULO XIII
A década de 50
e os americanos
Em 1945 a Guerra havia terminado. Getúlio
caiu. E o mercado editorial enfrentava um período difícil,
resultado das políticas governamentais de censura e economia.
O Brasil deixava a cultura francesa, na qual se
espelhou por tanto tempo; enalteceu, na fase getulista, o nacionalismo;
e agora olhava, com inveja, o florescimento e expansão
econômica dos americanos. Zé Carioca e Carmen Miranda
faziam sucesso como ícones da cultura brasileira nos EUA
- sem deixar de estereotipar o "exotismo" do Brasil.
A modernidade tomava conta de nossas capitais que rapidamente
se transformaram em metrópoles: ônibus, telefones,
e os primeiros arranha-céus. A admiração
pelo estilo de vida progressista dos americanos se acentuaria
na década de 50, quando o país foi invadido pelo
rock´n´roll, o chiclete e a coca-cola. Com isso, até
o samba, disfarçado de bossa-nova, parecia estar sendo
deturpado.
O então presidente, J. Kubitschek (batizado
de "presidente bossa-nova"), buscava estreitar laços
com os EUA e trazer a todo custo o progresso: cinquenta anos em
cinco - seu "Plano de Metas" e a criação
de Brasília. Foi graças a isso que cresceu rapidamente
o parque gráfico e atenção especial foi dada
à produção de livros, com o fim da taxa de
câmbio favorável à sua importação,
tornaram-se mais vantajosas as edições brasileiras.
Tais políticas, aliadas aos subsídios à indústria
do papel, elevaram nossa produção a 66 milhões
de exemplares.
O olho no vizinho americano e a importação
do modelo de progresso a todo custo gerou no país um certo
clima de contestação: inflação, invasão
estrangeira e rápido endividamento externo foram alguns
dos tópicos atacados. A fonte dessa crítica ferrenha
ao governo JK e à sua política brotava das universidades.
A partir dos anos 50, com a criação das Federais
e da Universidade de Brasília - UnB- , o ensino superior
deu um salto, passando de cerca de 44 mil universitários
para 280 mil, no final dos anos 60. Surgiram então movimentos
estudantis: o Teatro Arena, o Centro Popular de Cultura, a UNE,
o Cinema Novo e as canções de protesto.
A cultura fazia seu papel de reivindicar uma sociedade
melhor. Nomes como Caio Prado Jr., então proprietário
da Editora Brasiliense, Florestan Fernandes, Álvaro Vieira
Pinto, preenchiam o cenário intelectual e reivindicatório
da época. O setor editorial faria sua parte publicando
ensaios teóricos e análises de conjuntura. Outro
nome a ser lembrado é o do editor Ênio da Silveira,
dono da Editora Civilização Brasileira. Ao lado
da Brasiliense, caracterizou-se por escrever contra o regime vigente,
divulgando idéias e projetos de sociedade. Após
o Golpe Militar, muitas dessas editoras sofreriam por se manterem
na oposição.
CAPÍTULO XIV
A arte chega aos livros
O livro brasileiro perdia em comparação
com os estrangeiros, até a década de 30. Mais uma
vez estava lá, José Olympio, e seu colaborador,
Tomás Santa Rosa, que foram os reponsáveis pela
primeira revolução estética no mercado editorial
brasileiro. A ausência de um acabamento mais esmerado era
comum.
A admiração pela edições
francesas luxuosas e ilustradas despertaram os editores brasileiros.
O paraibano Santa Rosa, que até então fizera desenhos
de capa, era pintor, produtor gráfico, cenógrafo,
ilustrador. Trabalhando sempre inspirado por Portinari, Rosa,
além do trabalho para editoras comerciais, passou a ser
responsável pela arte visual das publicações
do governo federal.
Outros dois nomes merecem destaque: Poty Lazzaroto
e Luís Jardim, que a partir de 1942, executariam regularmente
desenhos para a "Casa", e que, após a morte de
Rosa, assumiu seu lugar. Entre outros colaboradores, estavam os
modernistas: Anita Mafatti, que ilustrou Iracema, de José
de Alencar; Tarsila do Amaral, ilustradora de A moreninha,
de Joaquim Manuel de Macedo. Este foi considerado o período
áureo da ilustração no Brasil.
Em 1942, surgiu a sociedade dos Cem Bibliófilos
do Brasil, que existiu até a morte de seu fundador, Raymundo
de Castro Maia. Os grandes nomes da arte brasileira, como Iberê
Camargo, Carybé, Cícero Dias, e Goeldi, também
contribuiram para ilustrar as obras consagradas pelos bibliófilos.
Ênio da Silveira, o fundador da Editora Civilização
Brasileira, também inovou ao contratar Eugênio Hirsch
como produtor. Com ele, as cores vibrantes, os desenhos coloridos,
passaram a dominar as capas. Os espaços em branco deixaram
de ser vistos como desperdício de papel para ganhar status
estético. Assim, o conceito de arte se inseriu nos livros
e a diagramação também foi transformada para
ajustar a funcionalidade à beleza.
CAPÍTULO XVI
Livrarias, autores, café,
ponto de encontro, livros
As livrarias de sucesso no Brasil tiveram sua história
marcada por uma carcterística: além de vender livros
elas eram também pontos de encontro. Algumas reuniam autores,
como a Garnier, no Rio. Outras eram frequentadas pela elite da
sociedade, como a Garraux. A Globo, em Porto Alegre; a José
Olympio, no Rio; a Teixeira, em São Paulo, mativeram a
tradição. A livraria Jaraguá reunia nomes
como Decio de Almeida Prado, Antonio Candido, Alfredo Mesquita
(dono da livraria), Paulo Emilio Salles Gomes. Estes intelectuais
publicavam a Revista "Clima", que pretendia ser o veículo
de opiniões da nova geração sobre cinema,
música, literatura, ciência, economia. Até
1957 a Jaraguá foi a principal livraria. Mas outras vieram:
a Kosmos, Palácio do Livro e a Triângulo - esta última
tinha entre seus ilustres Oswald de Andrade, que apelidou os intelectuais
da Clima de Chato´s boys.
A livraria Brasiliense, da tradicional
editora do mesmo nome, tinha uma atração especial:
Monteiro Lobato aparecia por lá à tarde para conversar
com fregueses. Lobato não gostava de se expor muito em
público e, conta-se que Artur Neves, um dos donos, mandou
isolar com uma vidraça o lugar onde o autor ficava.
Na década de 40 surgiram as livrarias preocupadas
em vender apenas livros: a Siciliano e Cultura. O fundador da
Siciliano, Pedro Sicliano, era um carioca que se mudou para São
Paulo em 1928. Depois de trabalhar 12 anos como distribuidor das
publicações de Roberto Marinho e Assis Chateuabriand,
Pedro abriu sua primeira livraria em 1942, aonde está até
hoje. Com o sucesso, Pedro abriu novas filiais, estas na periferia,
o que também fez dele um inovador.
A Cultura, a livraria mais cara de São Paulo,
teve origem em 1947, quando Eva Herz abriu um pequeno negócio
de aluguel de livros com dez obras de autores alemães -
foi a primeira biblioteca circulante de São Paulo. Aos
poucos o negócio prosperou e, ao lado de seu marido, Kurt,
abriu a livraria Cultura, nos fundos da casa onde moravam. Tradição
e qualidade são caraterísticas dessas livrarias
- mas preços altos também. Ainda estamos, no Brasil,
esperando por livrarias que ousem quebrar o círculo vicioso
dos preços altos, que tanto colaboram para o exclusivismo
e elitização da leitura.
CAPÍTULO XVII
Revistas que deixaram saudades
Uma ebulição intelectual só
comparável à ânsia transformadora do Modernismo:
era uma época em que os jornais eram superficiais e os
livros não atendiam a urgência dos debates. É
nesse período que surgem as revistas - um meio termo entre
jornais e livros.
A Revista Brasiliense foi a mais importante.
Estreou em 1955 apresentando uma proposta em forma de manifesto
e trazendo à discussão de problemas econômicos,
sociais e políticos que inquietavam o país. Nomes
como Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda,
Sérgio Milliet, Josué de Castro, Florestan Fernandes.
Apesar de seus colaboradores estarem estreitamente ligados ao
Partido Comunista Brasileiro, a revista se opunha com frequência
à direção do PCB. Considerada uma continuação
da Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, a Brasiliense
foi publicada pela última vez em 1964, quando foi destruída
na gráfica a mando do governo.
A Revista Civilização Brasileira
surgiu como sucedânea da Brasiliense, tendo atingido 20
mil exemplares vendidos já no segundo número. Nesta
época também ocorreram outras manifestações
culturais de peso: a explosão da MPB, o Cinema Novo, os
grupos teatrais Oficina e Opinião, o surgimento de uma
vanguarda nas artes plásticas. Mas devido à repressão
a Civilização também acabou por ser censurada
e em 1968 se tornou inviável. Dez anos depois Ênio
da Silveira voltava à carga com o mesmo formato, sob o
nome Encontros com a Civilização Brasileira.
A Tempo Brasileiro, fundada em 1961, pelos
irmãos Franco e Fernando Portella, figuravam nomes como
Sérgio Paulo Rouanet, Marcílio Marques Moreira e
o liberal José Guilherme Merquior.
A edição de revistas, para editoras
de perfil combativo e politizadas, como a Brasiliense e a Civilização,
era uma forma de engajamento político e de intervenção
na sociedade e na opinião pública.
Texto baseado no livro: Momentos do livro
no Brasil. comprar